pensar

Calmo Desespero

 03.02.2016

Melbourne

 

Após Mabel ter voltado a guardar o telemóvel na mala e depois de já ter recuperado a sua calma de aço, Taylor aproximou-se discretamente para lhe perguntar: “Quem é esse tal de Ahmed com quem falavas?” Nesse momento, percebendo que o jovem a encarava nos olhos, aquela mulher com cabelos cor de fogo respondeu-lhe secamente. “Ninguém que conheças”, aconselhando-o em seguida a dirigir-se para perto do pai que, com as mãos na cabeça, andava de um lado para o outro, como se a razão o tivesse abandonado e só lhe fosse permitido caminhar em círculos.

 

“Disseste ao telefone para o Ahmed resolver esse problema o quanto antes… Qual problema? Exijo-te que me contes!”, insistiu Taylor, não se apercebendo do tom severo que tinha empregado para proferir aquelas palavras. Mabel, virando-se para ele, mordeu os lábios e lançou-lhe um olhar lascivo e penetrante que fez com que o sangue do jovem jogador de xadrez fosse bombeado de forma muito mais urgente no interior das veias e se concentrasse num único ponto do seu corpo.

 

“Tens sempre a necessidade de prever todos os movimentos efetuados no tabuleiro, não é verdade?”, perguntou-lhe a ruiva estonteante, desconcertando-o. Sim. Taylor gosta de calcular todos os seus passos, de medir meticulosamente as consequências de todas as suas escolhas. Pára e observa. Observa muito. Encara o mundo como um adversário e estuda-o ao mais ínfimo pormenor. Os seus movimentos não são exuberantes, mas são eficazes, certeiros e raramente expõe as suas peças mais valiosas.

 

Por outro lado, Mabel é uma jogadora bem mais arrojada, mas não menos racional. As suas jogadas são bem mais rápidas e a pressão desperta-lhe os sentidos. A sua postura é quase sempre predatória e Taylor, apesar de inteligente, é apenas uma presa que ela pode fazer correr até à exaustão.

 

“Não fujas à pergunta que te fiz! Que problema é esse tão urgente que tens para tratar?”, inquiriu novamente Taylor, não achando sequer necessário explicar à secretária do seu pai que, sim, gosta de ter o controlo de todas as situações com que se depara.

 

“Tudo é urgente. A vida é um jogo de ‘chess clock’, Taylor!”, rematou Mabel, concentrando-se novamente na condução do Born To Run.

 

 

Tombuctu

 

O relógio marcava as 06:34 da manhã. Alguém batia insistentemente à porta do quarto do hotel onde Cibeles estava hospedada. A argentina, conhecida pelo seu pouco apreço pelas manhãs, acordava assim de forma abrupta quando o dia ainda estava a começar. “Deve ser o Robert”, pensou, apesar de ainda faltar quase meia hora para que ele a fosse buscar.

Cibeles ainda não se tinha habituado às noites quentes de Tombuctu e por isso era obrigada a despir-se integralmente para conseguir dormir. À pressa, vestiu uma blusa decotada que lhe realçava os seios e uns calções curtos, que fazem parte da sua imagem de marca. Passou rapidamente as mãos pelos cabelos, tentando recompô-los, e dirigiu-se para a porta. “Quem é?”, perguntou. Do outro lado, reconheceu a voz de Ahmed, levando-a pensar que, por certo, Robert já se encontrava lá em baixo à sua espera.

Abriu a porta. “Dê-me só cinc….”, mas a sua frase não pôde ser concluída, porque Ahmed, com um gesto rápido, agarrou-a, pressionando sobre o rosto da assistente de realização um lenço com clorofórmio. Em poucos segundos, Cibeles estava inconsciente. Impotente como nunca antes havia estado, ainda para mais sobre os braços de um homem. Logo ela que, não evitando o toque e a proximidade com as pessoas que a rodeavam, nunca se deixava agarrar. Nem a nada nem a ninguém.

Embora naquele preciso instante, Cibeles não conseguisse pronunciar uma palavra que fosse, ela sabia demasiado e, além disso, tinha um espírito demasiado curioso. Por sua vez, Ahmed notabilizava-se pelo caráter discreto e pela sua capacidade de guardar e preservar segredos. Ele é muito mais do que um simples guia ou funcionário do estado. Ahmed é uma peça fundamental para garantir a estabilidade de uma máfia que muitos desconhecem e que, agindo em Tombuctu, tem ramificações em vários outros países, de diferentes continentes. A sua agenda de contactos é extensa, dentro e fora do país. Ele é, em suma, aquele que a todos conhece e que por poucos é conhecido.

 

Buenos Aires

 

Marco sentiu um arrepio frio passar-lhe pelo corpo. Após ter escutado as palavras de Emílio, passaram-lhe uma série de imagens pela cabeça e em todas elas surgia Cibeles. Por momentos, imaginou-a no centro da praça Syntagma, no meio de milhares de protestantes gregos, a tomar por seu o descontentamento do povo grego. Cibeles tinha poucas utopias, mas várias causas. Por todas elas, batia-se até aos seus limites. Marco sentia saudades daquela força interior e indomável, mas também da delicadeza daquelas mãos que tantas vezes lhe haviam percorrido o corpo.

“O que faz ela em Atenas? Conta-me tudo!”, ordenou Marco ao seu amigo. “Não sei de mais nada. Falamos durante pouco tempo. Disse-me apenas que estava bem. Tu conhece-la! Sabes que ela mede todas as palavras e apenas diz o desejado”, respondeu Emílio.

Marco dobrou e guardou rapidamente no bolso a carta que estava a escrever e, sem explicações, levantou-se e abandonou o café, serpenteando por entre as pessoas que lotavam o espaço, empurrando-as e ignorando os chamamentos do seu grupo de amigos. Naquele momento, estava surdo e quase cego. Os seus movimentos eram instintivos e os seus pensamentos desembocavam todos num único destino: Atenas.

À mesa restaram Emílio e Álvaro que, durante várias horas, discutiram quase tudo, excetuando aquilo que ali os levava: o guião. Debateram de forma acesa, com a cerveja a funcionar como gasolina, a situação grega. Álvaro era um marxista quase ortodoxo, enquanto Emílio era um liberal, um social-democrata. Falaram também do atual contexto cultural de Buenos Aires. “Uma valente merda!”, disse um deles e nisso os dois concordaram . “O futuro pertence-nos, Álvaro! E tu és o maior poeta vivo desta cidade!”

Levando as mãos ao bolso, Álvaro disse que, “por falar nisso”, tinha uma coisa para lhe mostrar. Desdobrando uma folha gasta, onde estava caligrafado um poema, o estudante de filosofia começou por ler o título: Uma Rosa Para Borges. “Escrevi-o ontem. Lê!”

quando o reino noturno tingiu todos os lugares de Buenos Aires

quando os teus olhos se tornaram poços

como remoinhos onde se refletem todas as imagens ainda por criar

despidas de formas

somente significados condimentados com a liberdade do vazio

pudeste nesse instante sentir a fragrância da rosa inatingível,

não esta que deposito agora sobre a saudade dos teus versos

não esta em decomposição e com o caule num copo submerso

para fingir a vida

- porque tudo são armazéns de morte

que conservamos até ao último instante da razão

com a débil esperança de lhe retirar a amargura

que se propaga pelas pétalas que os nossos dedos vão arrancando

para a concretização mágica dos desejos inocentes e juvenis

de onde podamos cuidadosamente todos os espinhos

mas onde as cicatrizes teimosas permanecem

como porteiras que dão aos nossos medos as diretrizes dos abismos

 

sei que por todo o mundo ainda existem roseirais inteiros

vazios de significado por não serem bravios

navios que se afundam com um perfume que nunca sentimos

porque os nossos olhos reclamam constantemente factos

relatos deste e de outros mundos

atos banais para encherem teatros

 

das cidades não agarramos pedaço ou ilusão alguma

das fábricas do tempo nada produzimos para além da escravatura

e desta pálida e transitória rosa que agora transporto

e que sufoco ao cerrar o meu punho

transformando-a neste poema em rutura e descomposto de senso

que é testemunho sem palato ou profundo gosto

da cegueira de mais um homem sem olfato para o incenso místico

da rosa que experimentaste e levaste do mundo

até ao fundo da história da eternidade que os telescópios negam

onde residem ecos abertos como ópios utópicos e expansivos

dos manifestos ofensivos para a organização universal que os olhos pregam

 

Emílio não percebeu o significado, mas fingiu bem nos elogios que teceu ao amigo. “Isto é genial! Isto é genial!...”, repetiu. Em boa verdade, o próprio Álvaro não percebia o significado do seu poema, porque, tal como costuma dizer, o que lhe interessa agarrar não são os significados, mas antes os significantes.

 

Enquanto isto, ao caminhar pelas ruas a caminho de casa, Marco estava já decidido. “Vou para Atenas! Vou ao teu encontro, Cibeles!”, disse em voz alta, parando depois num beco para mandar o primeiro risco dos últimos dias e o penúltimo da noite.

 

Atenas

 

A tarde caía sobre a cidade, trazendo-lhe uma serenidade quase rara, tendo em conta os dias agitados que se abatem sobre todas as coisas e todos os seres daquele lugar que, na antiguidade clássica, pariu o espírito ocidental. A luz morna esbatia-se nas fachadas dos prédios e, no interior do seu escritório, Nikolas tentava arrefecer algumas ideias, de forma a fixá-las no papel.

Já tinha algumas linhas escritas, mas parou para fumar um cigarro. Menos sete minutos de vida, mas o tempo é relativo, ninguém precisa de explicar isso a um físico. Era precisamente sobre a questão do tempo e sobre os desígnios do universo que o professor escrevia naquele instante, ainda que na verdade aquele texto fosse dirigido a Hemera. Redigia-a com todo o cuidado, como se um discurso se tratasse, tentando porém usar um registo coloquial.

“Tenho a impressão de que estou a viver o melhor período da minha vida, Hemera. O universo está em contínua expansão e com ele as suas dimensões. Na nossa realidade conhecemos a altura, a largura e a profundidade, três dimensões a que se junta uma quarta: o tempo. Por agora, ainda não podemos viajar no tempo.

Como explicação para o início de todo o universo que conhecemos, nós, os físicos, temos uma teoria a que chamamos Big Bang. Por certo, já ouviste falar dela. A partir dessa explosão inicial originou-se tudo aquilo que hoje conhecemos, estando o universo ainda em expansão.

Houve um homem, Allan Sandage, que, há umas décadas, demonstrou que a expansão do universo está mais lenta do que há mil milhões de anos. Por outras palavras, Hemera, acredita-se que este ciclo de evolução universal não é infinito e que, em algum momento, o espaço e tempo reverterão a sua marcha e começarão a contrair-se, dando origem a um fenómeno conhecido como Big Crunch.

Imagina que estás a mastigar uma pastilha elástica e que, com os teus lábios e o teu sopro, consegues fazer um balão. No instante em que parares de soprar, o balão enrugar-se-á. O mesmo acontecerá com o universo, Hemera. No momento em que o ímpeto dessa explosão inicial tiver finalmente cessado, ele entrará numa fase de compressão e regressão.

Simplificando, quero apenas dizer-te que gostava que o Big Crunch não começasse agora e que o tempo não corresse do fim para o princípio a partir deste instante. Gosto de acreditar que ainda tenho energia suficiente para que o meu universo se cruze com o teu e que desse acaso surjam estrelas e constelações novas. Gosto de acreditar que tenho tempo para te dizer estas palavras ou que simplesmente não necessitarei de as pronunciar. Porque tudo nos será natural, como naturais são as leis do universo.

Espero que quando chegar o tempo do tempo correr ao revés, ele nos faça aos dois recuar desde uma carícia de despedida até à primeira que ainda não trocámos, somente no universo paralelo do meu pensamento. Nessa altura, voltaremos a viver-nos um ao outro, desde a amarga saudade de já não nos termos até ao momento em que nos conhecemos. Tudo ao contrário, percebes? Para saborearmos novamente todos os minutos e todas as horas…”

Alguém bateu à porta do escritório de Nikolas. Abruptamente, o professor interrompeu a escrita. A realidade regressou-lhe. O relógio marcava as sete da tarde, hora a que havia agendado uma reunião com Hemera. “Entra”, diz-lhe Niko, experimentando um timbre calmo.

Hemera entrou e sentou-se, de frente para ele. “Estavas a trabalhar?”

“Não!... Isto era… não era nada!”, balbuciou Nikolas, amarrotando a folha de papel em que estava a escrever e lançando-a de seguida no caixote do lixo, onde jaziam outros documentos num cemitério de significados já sem utilidade.

 

Calmo Desespero (Versão integral... so far): https://www.drive.google.com/folderview?id=0B-rp-Oba2XUKfjZqb0lELTQ5SFJKd09CcERyU25sMGpvSmt2bU4tVFZWZGFaRFV2MmNzOXM&usp=sharing


Relacionados

O eremita e a internet

I´m gonna start a revolution from my bed...

Continuar a ler Renato Ferreira   27.12.2019

Ouçam, 'Phoenix'

'Phoenix', aprendam a ouvir. Foi assim que idealizei o título para este artigo que...

Continuar a ler Ana Marinho da Silva   06.10.2019

Comentários

Não existem comentários ainda. Porque não ser o primeiro?

Novo comentário